terça-feira, 19 de julho de 2011

Hey? Tem Alguém aí?




Hey?!? Tem Alguém aí?

Tem alguém aí? Que me faça acreditar?
O silêncio certeiro traduz, com um soco na cara, a minha dúvida.
Faz tempo que não ouço o telefone tocar.
Há muito tempo também, não encaro as horas, os minutos e os segundos, mas sei que eles estão ali,
continuamente consumindo aquelas lembranças sempre reviradas.
As longas risadas de outrora já perderam a intensidade
e mesmo rodeado de pessoas imbecis me sinto protagonista de uma imbecilidade maior.
Desaprendi a sorrir?
Não me responda...

Hey?!? Tem alguém ai???

Resgato o cheiro bom de chuva na terra molhada
e recordo do quanto sentia-me livre naquele simples instante onde NADA era TUDO.
Era o momento em que a minha infância era registrada descaradamente na vida.
O azulejo português que sustentava o caminhar daquela velha senhora,
sempre me fez sonhar com um mundo de possibilidades infinitas
e justo ali eu me despia de todos os medos que a realidade me oferecia diariamente.

Ao tentar a fuga forçada de uma naturalidade chamada tempo,
descobri que aos poucos me foi arrancado, bruscamente, uma parte do amor.
Vi a carne chegar aos ossos e a terra cobrir as flores jogadas no último Adeus...
porquê?...porquê???

O barulho contínuo da metrópole, sufoca o som dos pássaros urbanos em suas respectivas árvores cinzas.
A natureza cala-se e dá passagem ao homem primata que em sua individualidade canta o capitalismo selvagem.
Eu, filho do caos, ainda como espectador, encaro cada movimento...subtraio-me.
Protagonista que sou...aquieto-me a observar.
Atravesso multidões, fantasio-me de NADA...desapercebo-me.
Torno-me ele e ela.
Sou aqui e ali.
Tenho medo de mim.

As folhas secas continuam sendo varridas junto com os restos do que fomos...
Mais um brinde por favor?
Sonhei com o amor por mais uma vez...

Amor?
Eu que sempre fui marcado pelo plural?
Eu que sempre fui beijos e palavras cultivadas na intensidade do agora?
Eu que sempre rasguei no verbo as verdades que me brotavam continuamente
quando sorrisos sinceros batiam de frente com os olhos que sempre buscam?

Busco, desesperadamente busco e embriago-me com a vida!!!

Fernando Resende

terça-feira, 28 de junho de 2011

O essencial é saber ver...



O essencial é saber ver, mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida,
isso exige um estudo profundo, aprendizagem de desaprender.
Eu prefiro despir-me do que aprendi,
eu procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram
e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
desembrulhar-me e ser eu.

Alberto Caeiro

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Você sabe que todas as coisas..



Você sabe que todas as coisas vão se acabar.
Resta o efêmero, resta o amor.
Faça-se amor, grita com as dores da consciência, toma as pílulas de alegria do sono e do sexo.
Repete o mesmo canto, as mesmas palavras, as mesmas súplicas surgidas da insatisfação do primeiro parto.
Soluça e ama na inutilidade das verdades que você diz e que já foram ditas e sentidas. Grita o amor à sua carne, a seu egoísmo, que nega que foge, porque você se ama e a todas as suas coisas, porque você sabe que todas as coisas de hoje, de amanhã de sempre vão se acabar, vão se acabar.


Autor: Stella Maris

domingo, 22 de maio de 2011

Abandono


Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:

quando cheias de areia de formiga e musgo - elas
podem um dia milagrar de flores.

(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)

Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.

(Eu sou beato em violetas.)

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.)

Manoel de Barros

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Escolho meus amigos pela pupila


Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

terça-feira, 29 de março de 2011

Aqui se vive...


Guimarães Rosa escreveu: "Viver é um descuido prosseguido".


Sigo à risca.

Me descuido e vou...

Quebro a cara. Quebro o coração.

Tropeço em mim. Me atolo nos cinco sentidos. Viver não é perigoso? Então, com sua licença! Não tenho medo.

Nasci assim. Descuidado. Encantado pela vida. "O sertão é dentro da gente".

Ah, como não? Aqui tudo é perdido. Tudo é achado. Somos ferro e fogo. Perigo nunca falta!

Sertão é igual coração. Se quiser, que venha armado! Tudo é igual. Aqui se vive. Aqui se morre. Dentro e fora da gente.

Confusão demais em grande demasiado sossego.

quarta-feira, 23 de março de 2011